“Já me acostumei a deitar a cabeça no travesseiro e espantar o meu sono com as minhas lembranças. Impossível esquecer aquela troca de olhares, dos abraços que tanto me fizeram tão bem. Inexplicavelmente você deixou um vazio dentro de mim que ninguém é capaz de preencher. Madrugada, aquela que a muitos amedrontam e a mim inspira, traz lágrimas, sorrisos e uma só saudade, e é com ela que eu tento conviver todos os meus dias na esperança do teu retorno.
“Eu não quero voltar para casa. Quero perder o rumo e rir da minha própria desgraça. Não quero encarar o velho cinzeiro e ver os restos dos meus vícios. É nauseante deitar a cabeça todos os dias no mesmo travesseiro úmido de lágrimas e sentir o odor de minhas noites mal dormidas e amadas. As lembranças do lar têm cheiro de mofo. O velho portão range quando tento abrir, e esse barulho enfadonho me causa repulsa. Mudei de endereço, e agora não tenho um número fixo. Caso queira me encontrar olhe para o céu, siga o rastro de uma estrela qualquer e tente me seguir pelo horizonte. E se me encontrar, não terei um café ou chá para oferecer, mas tenho uma xícara de destino incerto e escolhas a fazer. Não vou voltar para casa, não vou me submeter a um telhado frio se posso ter todo o céu iluminando meu caminho. Um bom filho ao lar retorna? Neste caso, sou ovelha perdida, a procura de um pasto que me satisfaça.
“Você percebe que a intimidade ta grande demais quando a pessoa te xinga e você nem se sente ofendido, acha bonitinho.
~ Tati Bernardi.